Marcelo Sampaio é fotógrafo desde 1998 e registra histórias de pessoas consideradas “invisíveis” na cidade
Por Andressa Vitorino
Se as paredes pudessem falar, como dizem que elas têm ouvidos, o que falariam no conjunto habitacional do CDHU em Marília? Buscando essas respostas o professor de sociologia e fotógrafo, Marcelo Sampaio, decidiu contar as histórias dos moradores do Conjunto Habitacional Paulo Lúcio Nogueira através de fotografias. São narrativas de luta por moradia digna e por uma melhor qualidade de vida.
“O CDHU chegou até mim primeiro através dos noticiários locais que alternavam notícias policiais e notícias sobre o os riscos de desabamento e a precariedade do local. A estigmatização do lugar sempre me incomodava e despertava a curiosidade. Afinal, o CDHU foi importante nos processos de desfavelamento aqui na cidade, sendo o sonho de uma vida melhor para muitas famílias de trabalhadores.”, contou.
“Por intermédio de um amigo que está participando da organização de um movimento político de defesa da manifestação de moradores do CDHU, eu entrei em contato com uma das comunidades de famílias e de pessoas que ali se formou.”, detalhou.
Ali, em contato com as famílias, Marcelo percebeu uma realidade diferente da noticiada e conhecida pelos moradores da cidade.
“O CDHU não é lugar só de violência, criminalidade e carências, mas é marcante ali outras histórias, outras vivências, lutas, resistências, realizações, enfim, outras realidades.”

Foto: Marcelo Sampaio, série “CDHU”
Mostrar essa outra realidade para o mundo, é o objetivo do fotógrafo, que além de fotografar, busca conhecer a história de cada pessoa que mora no espaço.
“Como o meu trabalho é documentário, fotografia de compromisso social, representar a dignidade dessa outra realidade é meu objetivo. Ainda estou em processo de aproximação, mas há uma aceitação pela maioria das pessoas, até agora a aceitação está sendo razoável. É preciso ter tempo e paciência nesses trabalhos, o ideal é fazer fotos com as pessoas e não fotos de pessoas.”, disse.

Foto: Marcelo Sampaio, série “CDHU”
Quando olha pelas lentes da câmera, Marcelo não só registra uma realidade distinta, mas tem um encontro consigo mesmo.
“Eu revisito passagens da minha vida que reconheço em algumas passagens das histórias que ouço dos moradores do CDHU. Aprendi também com essas experiências de vida que tomo contato, me sinto muitas vezes como se eu estivesse com meus familiares e conhecidos…sofro e me emociono. Entendo empiricamente as desigualdades, as lutas e os problemas dos trabalhadores e sua teimosia em ser felizes.”, finalizou.
Marcelo Sampaio, é fotógrafo há 25 anos, e encontrou na fotografia uma forma de se relacionar com os acontecimentos sociais e políticos que ocorriam ao seu redor. O trabalho de Sampaio pode ser encontrado no perfil @luzesdemarilia, no Instagram.
“Chegou um momento em que a fotografia apareceu como uma maneira de me relacionar com tudo isso de maneira estética, documental e crítica. Comecei a fotografar ainda quando se utilizava filme, no período do sistema analógico e aprendi a revelar filme e fazer o serviço do laboratório fotográfico.’’
Quando questionado sobre o porquê continua fotografando, Marcelo é claro na resposta:
“Sabe, a luta e a resistência por dignidade e moradia adequada para as famílias do CDHU é o que me move a fotografar.”



Fotos: Marcelo Sampaio, série “CDHU”
A situação do Conjunto Habitacional ganhou espaço nas mídias locais em janeiro deste ano, após o juiz Walmir Idalêncio dos Santos Cruz, da Vara da Fazenda Pública de Marília, determinar a interdição cautelar do Conjunto Habitacional “Paulo Lúcio Nogueira”, na zona sul do município, devido ao perigo iminente de desabamento.
Desde então, um jogo de “empurra-empurra” começou e até agora, oito meses depois do pedido de interdição, os moradores continuam morando no local, correndo os mesmos riscos e lutando para que a promessa de moradia digna feita para eles, no processo de desfavelamento, seja cumprida.


























