O som dos santos pecadores

por Ramon Barbosa Franco

A moda caipira e o lamento do Delta do Mississippi bebem da mesma fonte. Vocalizado e dedilhado, o sertanejo e o blues relatam a dura realidade do trabalho, a vida nos pontos isolados e as distâncias inexoráveis de amores perdidos… e eternos. Assisti recentemente a ‘Sinners’ [Pecadores, de 2025], indicado a 16 Oscars – incluindo as categorias de Melhor Filme e Melhor Ator, ambas disputadas pelo nosso filme ‘O agente secreto’. Outra similaridade entre ‘Sinners’ e ‘O agente secreto’ é que os seus respectivos diretores – Ryan Coogler, de ‘Sinners’, e Kleber Mendonça Filho, de ‘O agente secreto’ — conceberam os roteiros. Cada qual ficcionou ali sua realidade, seu mundo, suas angústias e suas esperanças. Kleber e Ryan são homens do cinema, concebem a arte em imagem, som e movimento, em cortes e planos sequenciais ou em foco.

O místico Delta do Mississippi, com a névoa dos lagos que encharcam campos, suas encruzilhadas – onde algum misterioso pode lhe propor ensinar habilidades musicais em troca de algo que é só seu e está bem profundamente guardado, e a dura herança da escravidão no continente americano integram o enredo de ‘Sinners’. Ali tem alusão à ancestralidade dos imigrantes africanos, ao enigmático Robert Johnson – que dizem, aceitou fazer a troca profunda – e ao legado de BB King, com a sua ‘Lucy’. ‘I’m Sammy Moore, I’m a sharecropper from Sunflower Plantation. They call me ‘Preacher Boy’’. A frase em português dita pelo jovem Samuel, o Sammy Moore, antes de se apresentar pela primeira vez na recém-inaugurada casa de blues dos primos gêmeos, Fumaça e Fuligem – interpretados por Michael B. Jordan (que levou o Oscar de Ator, vencendo o brasileiro Wagner Moura) – seria assim: ‘Sou Sammy Moore, trabalho na lavoura de algodão da plantação Sunflower. Eles me chamam de Pastorzinho’. A cena que se desenrola a seguir é perfeita e marcante.

Sammy é fruto do suor dedilhado, da voz entoada para o cantar. Suas mãos não só colhem algodão, sua voz não só informa quantas sacas colheu ao final de um dia de trabalho. Duduca, da dupla Duduca e Dalvan, era pintor de parede e, ao lado de José Rico – esse mesmo, que faria a famosa dupla com Milionário – trabalhavam em várias empreitadas. Acontece que, em determinado momento, quando estavam se preparando para pintar uma sala ou uma cozinha, Zé Rico virava para o Duduca e dizia: ‘Acabei de pensar numa moda, vamos compor!’. E assim a casa e o cliente que esperassem a música ficar pronta. Desta forma nasceu ‘Quarto triste’ (gravada em 1973) e ‘Velho candieiro’. 

Em 1975 Duduca não mais vai precisar pintar parede para sobreviver: é no cinema – a arte de ‘Sinners’ e de ‘O agente secreto’ – que José Trindade (1936-1986) passaria a expressar o seu talento como músico e autor de trilhas sonoras. E mais: será em 1977, durante as gravações do filme ‘Entre o céu e o inferno da Camanducaia’, que Duduca conhece um moço de voz linda: João Gomes de Almeida, que viria a ser o seu parceiro, Dalvan. ‘Espinheira’, ‘Massa falida’ e ‘Rastros na areia’ estão aí para contar o enredo de Duduca e Dalvan na indústria fonográfica do Brasil. Duduca morreu aos 49 em 1986 e Dalvan segue cantando.

Com uma força tão surpreendente e transcendental quanto a música ‘Rastros na areia’, ‘Sinners’ engendra o público para uma viagem ao interior da ancestralidade americana e, meio que sem perceber, o filme te coloca numa versão deslocada em tempo e espaço de ‘Um drink no inferno’, ação com Quentin Tarantino, George Clooney e Salma Hayek. A conexão da humanidade, de suas etnias unidas na miscigenação de um povo – algo tão nítido e comum para nós brasileiros – ao meu ver é o que dá o tom efervescente em ‘Sinners’ e, talvez isso, possa explicar suas estatuetas de Melhor Ator, Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora. Agora, para mim, ficou bem claro o porquê na noite da entrega do Oscar o público que assistiu à transmissão das poltronas do Clube de Cinema de Marília vibrava toda vez que o filme de Coogler vencia. 

Ainda falando da trama, o folk horror americano – horror inspirado na oralidade dos contos folclóricos de sua própria gente – e o suor dos homens e mulheres que colheram com suas mãos o algodão da base da sólida economia americana – consistiram nas melhores impressões que pude ter do filme. Me mostraram, mais uma vez, que moda caipira e blues são frutos da mesma origem: a do sonhar por dias melhores, de traduzir em música o cotidiano, a vida, e o desejo pelo amor que pulsa.

Toda essa efervescência repousa, fundamentalmente, no sagrado. Assim como a moda caipira brotou das folias de reis, dos mutirões e dos hinos religiosos que ecoavam no Brasil de dentro, o blues bebeu diretamente da fonte do gospel e dos ‘spirituals’ para suavizar a dureza do confinamento, envolver a comunidade e dar vez e dignidade aos negros segregados no Sul americano. Ambas as vertentes nasceram sob o manto da fé coletiva para aplacar a dor do cotidiano. Enquanto o lamento do Delta do Mississippi transformou o sofrimento em identidade para a comunidade negra, a moda de viola deu vez aos de dentro, aos esquecidos. Assim, santos e pecadores cantam a mesma prece.

‘Sinners’ está em cartaz no HBO Max por esses dias… recomendo muito!

Ramon Barbosa Franco é escritor e jornalista, formado em Comunicação Social (Jornalismo) pela Universidade de Marília (Unimar), autor dos romances ‘Canavial, os vivos e os mortos’ e ‘A próxima Colombina’, das biografias ‘Laurinda Frade, receitas da vida’, ‘Getúlio Vargas, um legado político’, ‘Nhô Pai, o poeta de Beijinho Doce’ e ‘Quatro Patas, a história de Pituco’, e-mail ramonimprensa@gmail.com , insta @ramonbarbosafranco 

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