Lançamento oficial será nesta quarta-feira, dia 18 de fevereiro, em auditório que leva o nome do bispo que construiu quase mil apartamentos para os pobres no Rio de Janeiro
por Ramon Barbosa Franco
Depois que você passa o portão com a inscrição ‘Capharnaum, the town of Jesus’, em Cafarnaum, às margens do Mar da Galileia, à esquerda de quem caminha rumo à antiga sinagoga e ao que sobrou da antiga casa da sogra de Pedro, o primeiro papa, nota-se uma escultura em bronze. Deitado em um banco, com os pés chagados para fora e com um cobertor cobrindo o rosto, está um homem. É alto e esguio, assim como vive na memória dos cristãos o biotipo do Cristo.

Desenvolvida em 2014 pelo artista plástico Timothy Schmalz, esta obra de arte a céu aberto concebida no mundo pós-moderno integra a passagem do mundo histórico, numa cidade que sofreu as consequências por ignorar a imensidão de um dos seus muitos moradores de um passado quase mitológico. Cafarnaum sucumbiu, virou ruínas. Jesus, por sua vez, é lembrado há 2026 anos e suas palavras ainda são seguidas e inspiram milhões de pessoas. É do Evangelho de Mateus que o canadense retirou a inspiração para o ‘Homeless Jesus, 2014’ [‘As you do unto the least of my brethren, you do unto me’, complementa a placa que apresenta a obra aos visitantes do mundo inteiro que querem estar na mesma cidade do Cristo]. O versículo nos informa que ‘o que fizeres ao mais humilde dos meus irmãos, a mim o farás’ — os ‘the least’ são os desamparados, pessoas para as quais o Nazareno pregava no Mar da Galileia dois mil anos atrás.

Entrada de Carfanaum, Mar da Galieleia, em Israel: ao fundo dorme o Jesus-sem-teto de Timothy Schmalz… abandonado, mas divino [Crédito das imagens de Carfanaum: Ramon Barbosa Franco]
Fraternidade e moradia no Brasil de 2026
Focada nas famílias e pessoas que não têm a dignidade de um lar ou de um imóvel próprio, pautada no legado do antigo morador de Cafarnaum, mas extraindo de João — outro evangelista que caminhou ao lado do Verbo — a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lança nesta quarta-feira de cinzas — a ‘quarta-feira gorda pós-carnaval’ — a Campanha da Fraternidade 2026. O tema é ‘Fraternidade e Moradia’ e o lema, pautado pelo Evangelho de João, é: ‘Ele veio morar entre nós’ [João 1,14]. O evento será às 10h, na sede da CNBB, em Brasília, capital do Brasil, no auditório que leva o nome de um arcebispo que, por pouco, não ganhou o Prêmio Nobel da Paz e que, na década de 1950, liderou a construção de quase mil apartamentos para os brasileiros favelados do Rio de Janeiro. Dom Helder Câmara (Fortaleza, 1909 – Recife, 1999) dizia que os trabalhadores precisavam morar perto dos seus empregos e trabalhou para que fossem construídos blocos de moradias populares no bairro Leblon, quando o Rio ainda era a sede do Governo Federal. E se Dom Helder não recebeu em Estocolmo o Nobel, Frankfurt lhe concedeu o Prêmio Popular da Paz — ele só não levou o Nobel oficial porque foi boicotado.

Os versículos que inspiram a Campanha da Fraternidade 2026 e a obra de Timothy Schmalz podem ser diferentes, mas o Jesus-sem-teto será propagado aos quatro cantos do Brasil: é a imagem do bronze que nos remete ao sagrado direito de uma casa que estará percorrendo todos os cartazes alusivos à iniciativa para inspirar a reflexão no período da Quaresma.
O Cristo esquecido num banco de praça, sem casa nem imóvel, nos mostra alguém que está na pior, jogado e abandonado, mas que carrega uma dignidade e uma verdade que ninguém consegue apagar. E não será apenas em Cafarnaum, em Israel, que o ‘Homeless Jesus’ entrará em cena. Após a abertura oficial da CF 2026, a programação segue no Santuário Nacional de Aparecida, no Vale do Paraíba paulista; em 21 de fevereiro, às 19h30, acontecerá a bênção de instalação do monumento ‘Cristo Sem-Teto’, a mesma obra do artista canadense Timothy Schmalz, no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida.

“A escultura, que retrata Jesus identificado com as pessoas em situação de rua, simboliza o apelo da Campanha à solidariedade e ao compromisso concreto com os mais vulneráveis”, escreveu a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
Ramon Barbosa Franco é escritor e jornalista formado em Comunicação Social habilitação em Jornalismo pela Universidade de Marília (Unimar). Autor de reportagens, romances, biografias, novelas, contos e roteiros de HQs, ramonimprensa@gmail.com e perfil no Instagram @ramonbarbosafranco



























