A recente aproximação diplomática entre Washington e Pequim, marcada pela visita de Trump à China, não representa uma superação da rivalidade estrutural
por Thais Caroline A. Lacerda
A crescente rivalidade entre os Estados Unidos e a China transformou Taiwan em um dos principais pontos de tensão da ordem internacional contemporânea. Mais do que uma disputa territorial, já que Pequim e Taipé reconhecem o princípio de “uma única China”, a questão taiwanesa articula competição tecnológica, segurança estratégica e transição hegemônica no sistema internacional. Nesse contexto, o Estreito de Taiwan tornou‑se um espaço central para compreender os limites da ordem atual liderada pelos Estados Unidos e a ascensão da China.
A recente aproximação diplomática entre Washington e Pequim, marcada pela visita de Trump à China, não representa uma superação da rivalidade estrutural entre as duas potências, mas sim uma tentativa de administrar riscos em um ambiente marcado pela interdependência econômica, competição tecnológica e crescente militarização do Indo‑Pacífico. Ao mesmo tempo em que os dois países buscam evitar uma escalada militar direta, buscam ampliar os mecanismos de dissuasão e fortalecer estratégias voltadas à proteção de setores considerados críticos à segurança nacional.
Taiwan ocupa posição central nessa disputa devido à concentração de capacidades produtivas estratégicas relacionadas à indústria de semicondutores. A Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC) tornou‑se peça fundamental da economia digital global ao produzir chips avançados essenciais para inteligência artificial, telecomunicações, sistemas militares, supercomputadores e centros de dados. A elevada dependência internacional dessas cadeias produtivas levou ao conceito de “escudo de silício”, segundo o qual a importância econômica da ilha atuaria como elemento de dissuasão contra um conflito militar entre as grandes potências.

Os Estados Unidos têm buscado restringir o acesso chinês a tecnologias avançadas e fortalecer alianças no Indo‑Pacífico, especialmente com o Japão, as Filipinas e a Austrália. Ao mesmo tempo, a China acelera as políticas de autonomia tecnológica e de modernização militar, além de buscar maior protagonismo na governança global.
Nesse cenário, a questão de Taiwan assume importância geopolítica e militar. A chamada Primeira Cadeia de Ilhas (arco estratégico que vai do norte do Japão às Filipinas) representa um cinturão de contenção marítima fundamental para a projeção de poder no Pacífico. O avanço das capacidades chinesas de antiacesso e negação de área (A2/AD) desafia diretamente a presença militar dos EUA na região.
As raízes históricas do impasse remontam à Guerra Civil Chinesa. Após a vitória comunista em 1949, o governo nacionalista do Guomintang refugiou‑se em Taiwan, mantendo a República da China sob proteção americana. A partir da década de 1970, uma inusitada parceria entre os Estados Unidos e a China para conter a União Soviética levou Washington a reconhecer oficialmente a República Popular da China e adotar a Política de Uma China. Como consequência dessa parceria, os Estados Unidos não vetaram a Resolução 2758 da Assembleia Geral da ONU, que reconheceu a República Popular da China como a única representante legítima do povo chinês nas Nações Unidas.
Apesar disso, o Congresso estadunidense aprovou o Taiwan Relations Act, que preservou os vínculos políticos, comerciais e militares entre os Estados Unidos e Taiwan, criando a chamada “ambiguidade estratégica”, que permanece até hoje como um dos pilares da estabilidade regional.
Sob a liderança de Xi Jinping, a reunificação nacional passou a ser apresentada como parte essencial do “rejuvenescimento nacional” chinês. Pequim mantém oficialmente a prioridade da reunificação pacífica, mas não descarta o uso da força diante de movimentos separatistas ou de interferências externas. Paralelamente, a sociedade taiwanesa passou por um processo de democratização e de fortalecimento de uma identidade própria, especialmente entre as gerações mais jovens, o que tornou a questão progressivamente menos vinculada ao legado da guerra civil chinesa e do princípio de “uma única China”.
Concluindo, a disputa em torno de Taiwan não é apenas uma controvérsia entre os chineses dos dois lados do Estreito, mas também um tema que se insere no centro da reorganização da ordem internacional. A ilha converteu‑se em um ponto crítico da competição tecnológica, militar, produtiva e estratégica entre as grandes potências. Mais do que um problema regional, Taiwan representa hoje um dos principais testes para a estabilidade do sistema internacional e para os limites da coexistência pacífica entre os Estados Unidos e a China.

Thaís Caroline Ataíde Lacerda, doutora e mestre em Ciências Sociais, é diretora gerente da agência Unity Global Institute, https://unityglobalinstitute.org/

























