Comerciantes celebram ‘vida nova’ um ano após fim da Cracolândia

Empresários relatam aumento da circulação de pessoas e retomada gradual das atividades após atuação integrada do Governo de São Paulo

Um ano após o Governo de São Paulo consolidar o esvaziamento definitivo da Cracolândia, comerciantes e moradores da região central relatam mudanças na rotina da área, com aumento da circulação de pessoas, retomada gradual da atividade comercial e maior sensação de segurança. A percepção é resultado de uma atuação integrada entre segurança pública, saúde e assistência social, implementada após décadas de deslocamentos sucessivos das cenas abertas de uso de drogas pelo centro da capital paulista.

A desocupação da rua dos Protestantes, último ponto de concentração do fluxo de usuários, marcou em maio de 2025 o rompimento da lógica baseada apenas na dispersão territorial e deu lugar a uma política estruturada de desarticulação do ecossistema do crime e presença contínua do Estado. A mudança passou a ser percebida diretamente por empresários da região, que apontam impactos positivos no movimento das ruas e no funcionamento do comércio local.

“A Cracolândia acabou, não existe mais. Nós tivemos um período de pesadelo por conta do fluxo, sofremos muito. Estamos vivendo hoje em uma rua tranquila, com muita segurança”, conta Mário Kamei, 81 anos, que trabalha há quase 40 anos em uma loja de motopeças na rua General Osório e é representante da Associação Rua das Motos, que envolve comércios da região.

Os prejuízos vinham até na hora de fechar as contas do mês. Comerciantes da região relatam a perda de até metade do faturamento em meses em que a crise da Cracolândia estava mais aguda. Receosos, clientes deixavam de frequentar as ruas do centro, tomadas por dependentes químicos, forçando muitos comércios tradicionais a migrarem para as vendas online.

Erika, filha de Mario e também lojista, lembra dos constantes furtos de cabos: “Durante o dia, tivemos muita perda de público porque os usuários furtavam os cabos de internet e de eletricidade. A loja chegou a ficar mais de duas semanas sem eletricidade, tínhamos que abrir tudo manualmente”.

Diante de problemas como invasões e depredações a lojas, os comerciantes se viram obrigados a contratar equipes de segurança particular. José Peloso Filho, comerciante há 46 na rua dos Gusmões, teve a loja assaltada e oito motos roubadas. “A gente não tinha segurança nenhuma aqui. Agora, há pouco tempo, passamos a ter segurança. Agora tem polícia logo na porta.”

A região da rua dos Protestantes, no centro da capital, chegou a concentrar cerca de 2 mil usuários de drogas. O esvaziamento da cena aberta veio acompanhado do menor número de roubos na região em 14 anos. De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP), o 3º DP (Campos Elíseos) e o 77º DP (Santa Cecília), delegacias que cobrem a área, registraram entre janeiro e março 881 roubos – 70% a menos do que as 2.905 ocorrências registradas no mesmo período em 2023.

A lojista Leonor Garcia, 76 anos, que tinha um fluxo intenso de usuários na porta de seu comércio, viu o impacto da Cracolândia chegar até dentro de casa: “Quando eu chegava na minha casa, eu escutava a voz deles na minha cabeça.”

Virada de chave

Apesar do marco, o fim da Cracolândia foi um processo gradual. Ao longo de mais de dois anos, o Governo de São Paulo, junto à prefeitura da capital, promoveu ações de saúde e social, para a intensificação de atendimento terapêutico de usuários de drogas, e segurança, para combater os crimes na região e desmantelar todo o ecossistema do crime organizado que existia naquele território.

No âmbito de saúde, o trabalho do Hub de Cuidado em Crack e Outras Drogas foi uma das principais ferramentas a apoiar o esvaziamento da Cracolândia. 9 a cada 10 pacientes que passaram pelo equipamento do Governo de São Paulo desde 2023 foram encaminhados para tratamento terapêutico em hospitais especializados, ou para acolhimento terapêutico o que garantiu um cuidado integral do paciente reduzindo a reincidência. Foi criado a linha de cuidados de saúde para acompanhamento da jornada do paciente.

Até chegar na percepção da população: “Eu percebi que a Cracolândia estava acabando quando vi pessoas com quem convivia aqui no centro começando a voltar. Pessoas consumidas pelo tráfico de drogas passaram a ter acesso a tratamento, moradia digna, e a rede de apoio delas começou a se estabilizar novamente”, conta Marcone Moraes, empresário, morador do centro e presidente da Associação ProCentro.

O futuro do Centro de São Paulo

O desafio de boa parte dos comerciantes da região da Cracolândia é retomar de vez o movimento de clientes. De acordo com os lojistas, muitos ainda têm a percepção de insegurança sobre o centro, o que contrasta com a presença frequente de viaturas pelas ruas da região atualmente.

Apesar disso, eles encaram o futuro com otimismo: “A expectativa é excelente. Eu nasci e cresci aqui na rua. Meu pai já está aqui há muitos anos e eu acompanhei todo o progresso. Estamos acompanhando de perto essa movimentação do Estado. Está sendo bem animador”, diz Erika fazendo referência ao projeto do Novo Centro Administrativo do Estado de São Paulo.

A iniciativa levará uma estrutura administrativa hoje espalhada em 40 endereços para um complexo de sete novos edifícios e dez torres na região dos Campos Elíseos. A estrutura deve receber cerca de 22 mil servidores e incluir teatro, auditórios, salas multiuso e novo terminal de ônibus, além de ações de requalificação urbana e restauração de imóveis históricos.

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