Historicamente marcada pela presença de imigrantes italianos e japoneses, Marília abriga hoje uma diversidade ainda maior de nacionalidades, como venezuelanos, cubanos, haitianos e europeus
por Cristina G Souza
Realizado em mais de 80 países, o Dia de Doar acontece tradicionalmente após o Dia de Ação de Graças e propõe um movimento global de solidariedade que vai além da contribuição financeira. Em Marília, a edição local ocorreu neste domingo, 22, na sede da Cáritas Diocesana, reunindo migrantes, empreendedores e a comunidade em uma programação que alia solidariedade, cultura e geração de renda.
A iniciativa em Marília é organizada pelo coletivo Conexão Migrante, que precisou adiar a ação devido às chuvas e às festividades de fim de ano e Carnaval. Para Hiordana Bustamante, uma das fundadoras do grupo, a proposta amplia o conceito tradicional de doação.

Hiordana Bustamante, Conor Hennessy e Michele: solidariedade não é apenas doação financeira, é doação de produtos, de tempo, de escuta e, também, acolhimento (Foto: Cristina G Souza)
“Solidariedade não é só dinheiro. É doação de produtos, de tempo, de escuta e de acolhimento. É sobre criar vínculos”, afirma a boliviana Hiordana, psicóloga e assistente social. Segundo ela, o evento também busca dar visibilidade aos migrantes que escolheram Marília para viver e contribuir com o desenvolvimento da cidade.
Historicamente marcada pela presença de imigrantes italianos e japoneses, Marília abriga hoje uma diversidade ainda maior de nacionalidades, como venezuelanos, cubanos, haitianos e europeus. “Por isso escolhemos o nome ‘Marília – Cidade que Acolhe’. Muitas vezes os migrantes são vistos como um problema social, mas estamos aqui para mostrar que construímos juntos”, destaca.

A feira reúne empreendedores de diferentes origens com produtos como artesanato em palha, crochê, costura criativa, saboneteria artesanal, velas, bijuterias, tapetes e acessórios. Além da comercialização, o evento conta com apresentações de música e dança, reforçando a troca cultural entre os participantes.
O irlandês Conor Hennessy, professor de inglês na Escola Waldorf Jequitibá-Rosa e responsável pela articulação dos expositores, explica que a proposta é criar conexões reais entre migrantes e marilienses. “Queremos uma Marília melhor para todos. A integração passa pela convivência, pelo conhecimento mútuo e também pela valorização do trabalho desses empreendedores”, afirma.

Economia criativa como ferramenta de inclusão
Mais do que uma ação pontual de solidariedade, o evento evidencia o papel da economia criativa como instrumento de inclusão social e desenvolvimento local. O setor, que engloba atividades baseadas em conhecimento, cultura e criatividade — como artesanato, design, moda, música e gastronomia — tem se consolidado como alternativa de geração de renda, especialmente para pequenos empreendedores e grupos socialmente vulneráveis.
No caso dos migrantes, a economia criativa representa uma porta de entrada no mercado, permitindo que habilidades culturais e saberes tradicionais sejam transformados em negócios sustentáveis. Ao expor e comercializar seus produtos, esses empreendedores não apenas garantem renda, mas também preservam identidades culturais e promovem intercâmbio entre diferentes tradições.
Ao unir solidariedade e empreendedorismo, o Dia de Doar em Marília reforça que acolhimento também se faz por meio de oportunidades. Em vez de assistencialismo isolado, a proposta aposta na construção coletiva, na valorização do trabalho e na potência criativa como motores de transformação social.
Em uma cidade construída historicamente por diferentes ondas migratórias, a mensagem do evento é clara: acolher é reconhecer que diversidade gera riqueza cultural, social e econômica.



























