Ainda adolescente sofreu tortura ao ser preso com pai por agentes da ditatura, Ivan Seixas agora transforma sua memória em Literatura
Ao ser chamado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, parlamentar do Rio de Janeiro, para proferir seu voto no processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), o então deputado federal e capitão reformado do Exército Brasileiro, Jair Bolsonaro, inicia seu discurso exaltando o 17 de abril de 2016 como uma data de glória ao povo brasileiro. Em seguida, avança na verborragia que se tornaria sua marca nos anos de Covid-19 em que governaria o Brasil: ‘Perderam em 64. Perderam agora em 2016. Pela família e pela inocência das crianças em sala de aula, que o PT nunca teve. Contra o comunismo. Pela nossa liberdade. Contra o Fórum de São Paulo. Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff… o meu voto é sim!’. Bolsonaro – que ganharia as eleições em 2018 e perderia as de 2022 por uma mínima margem de diferença – dava o 236º voto para o afastamento da ex-integrante da luta armada contra a ditadura: Dilma Vana Rousseff. A mulher mais poderosa do Brasil desde a princesa imperial e sucessora do trono de Dom Pedro II, Isabel de Bragança, sofreria o impeachment em seu segundo mandato. “Foi golpe”, define com clareza e certeza com voz de comando, o jornalista, escritor e historiador Ivan Seixas, que neste dia 3 de junho participa em Marília de evento e debate no campus da Unesp (Universidade Estadual Paulista) organizado pelo professor doutor Paulo Ribeiro da Cunha.
Duas coincidências da plenária de 43 horas que resultou na perda do mandato de Dilma recaíram sobre Ivan, à época um servidor federal lotado no Ministério dos Direitos Humanos, com uma vasta atuação na defesa da democracia brasileira e na atuação jornalística em assessoria de imprensa: 45 anos e 1 dia antes, aos 16 anos, Teobaldo – este era seu nome de guerra – ao lado do pai, da mãe e das irmãs estava sendo preso pelos agentes da ditadura. Vivia em São Paulo e aquele 16 de abril de 1971 marcaria profundamente sua vida por vários motivos. O primeiro: foi a última vez que a família Arkselrud de Seixas estaria na composição original, com seu Joaquim e dona Fanny, Ivan, Ieda e Iara juntos.
A família Arkelrud de Seixas – uma família que vivia num bairro afastado do centro paulistano – não estaria mais assim, unida. O pai Joaquim seria assassinado na tortura, na frente de Ivan. Dona Fanny estava na cela ao lado e viu o corpo do pai de seus filhos caído ao chão, com o rosto envolto em jornais da semana. Ivan, no dia anterior, após ser levado para uma simulação de fuzilamento, leu na banca de jornais a notícia da morte do pai: contudo, ele ainda estava vivo no DOI-CODI – que ele chama ainda de OBAN. “Se não o tivessem matado, iriam matá-lo, certamente. Não existe glamourização na luta armada, não há romantização: é vida dura. Não queiram saber como é o silêncio da tensão. A hora não passa e a qualquer momento o pior pode acontecer”.
Entre os torturados da família Arksehuld de Seixas – que violentaram ao menos uma das duas irmãs de Ivan – estava o militar citado por Jair Messias Bolsonaro ao votar pelo impeachment de Dilma Rousseff: Carlos Alberto Brilhante Ustra (1932-2015). “Ustra não olhava na minha cara, dirigia a palavra olhando para frente. Me mostrou o ‘pau-de-arara’ montado. Pedia para eu entregar quais eram os agentes da luta armada que estavam infiltrados no DOI-CODI. E eu não falei nada”, relembrou. Ivan era Teobaldo, um adolescente de 16 anos que cooperava com o Movimento Revolucionário Tiradentes, o MRT, célula comunista que concentrava trabalhadores da capital e que desafiava o regime militar instalado no Brasil desde o golpe de 1964. “Abrigamos em casa Carlos Lamarca, que era militar e havia rompido com o regime para ingressar na luta armada. Ele ficava na sala de casa, gostava de ler e assistiu ao programa de Chacrinha. Por cinco meses ele ficou conosco”, contou.
Lamarca, que era capitão do Exército, seria assassinado cinco meses após Ivan e sua família terem sido presos, numa perseguição que ocorreu no sertão da Bahia. Ivan só seria solto em 1976, mesmo ano em que morreram 2 nomes emblemáticos da política brasileira: os ex-presidentes da República João Goulart – deposto pelos militares – e Juscelino Kubitschek, o fundador de Brasília, que, mesmo sendo liderança moderada, teve seus direitos políticos cassados pelos militares no ano do golpe. Há uma semana o Estado brasileiro reconheceu que o acidente que vitimou Juscelino na Via Dutra foi, na verdade, uma queima de arquivo. “Não seria a mais importante informação ligada aos crimes cometidos pela ditadura militar, contudo, é bem impactante”, sintetizou quem viveu a opressão na pele e conseguiu sobreviver para, após deixar a prisão, reconstituir sua formação básica e, posteriormente, acadêmica e pós-acadêmica com mestrado em História.
Se formou em Jornalismo na PUC (Pontifícia Universidade Católica), escreveu para a Istoé e chegou a trabalhar na Câmara dos Vereadores de São Paulo, a maior do Brasil. Desenvolveu assessoria de imprensa e nos anos de Dilma Rousseff foi servidor federal no Ministério dos Direitos Humanos. Integrou a Comissão Nacional da Verdade. Sua vivência na luta armada foi transformada em Literatura nos últimos meses com o lançamento de ‘Contos guerrilheiros’, autoficção com muita propriedade de quem ajudou a não permitir que o povo brasileiro fosse chamado de covarde ante tantas atrocidades. “E não foram só os estudantes que lutaram contra a exceção, os operários também. Meu pai era um operário e enfrentou o regime. Seu nome de guerra era Roque e eu o vi morrer na sala de tortura. Ele morreu bem na minha frente”, recordou o escritor, que sobreviveu à tortura e aos anos ostensivos que seguiriam depois.
‘Contos Guerrilheiros’ – Editorial Adandê
(Bahia, 2025 – 300 páginas)
Ivan Seixas






























