Pediatra alerta que o alimento é um fluido vivo e inteligente, que adapta sua “receita” em tempo real para oferecer nutrientes e anticorpos de que o bebê precisa
Ele alimenta, protege e até “se lembra” das batalhas que a mãe já travou contra vírus e bactérias. O leite materno é mais do que um alimento: é um fluido vivo, inteligente e dinâmico, que carrega consigo o histórico de saúde da mulher e possui a capacidade de adaptar-se às necessidades do bebê. Quem garante e ressalta o alerta sobre a importância da amamentação é a pediatra, alergista, imunologista e, sobretudo, mãe de primeira viagem, Maielly Pereira, médica da Hapvida em Bauru.
“Amamentar não serve apenas para encher a barriguinha do bebê. É algo que constrói microbiota, fortalece o vínculo afetivo, estimula o neurodesenvolvimento e oferece imunidade. O leite materno possui uma ‘memória imunológica’ que reflete a experiência do sistema imunológico da mãe ao longo da vida”, explica a médica, que, há um ano, amamenta seu pequeno filho, José.
Essa memória funciona como um mapa de proteção. Quando a mãe entra em contato com vírus, bactérias ou vacinas, produz anticorpos, principalmente a imunoglobulina A secretora (IgAs), que são transferidos para o leite. Assim, o bebê recebe defesas contra agentes que a mãe já enfrentou. E o mais curioso ainda é que essa proteção é dinâmica. “Se a mãe for exposta a um novo microrganismo durante o período de amamentação, o leite rapidamente incorpora anticorpos atualizados, garantindo uma defesa sob medida para a criança. Além disso, ele contém células de defesa vivas, como linfócitos e macrófagos, que reconhecem e combatem microrganismos diretamente”, observa a pediatra, acrescentando que são raros os casos em que há necessidade de interrupção temporária da amamentação em razão de infecções contraídas pela mãe. “Depende muito da infecção, mas são poucas as que contraindicam”, completa.
Fluído vivo
Outro fator que ela ressalta é a capacidade de o leite materno em mudar sua “receita”, transformando-se ao longo dos meses, dos dias e até durante a mesma mamada. “É um alimento vivo. Nos primeiros dias, temos o colostro, rico em proteínas, anticorpos e fatores de defesa. Depois, o leite maduro ajusta a proporção de gorduras, carboidratos e proteínas para favorecer crescimento, imunidade e desenvolvimento cerebral do bebê conforme a necessidade”, detalha a médica, acrescentando que até a saliva da criança, em contato com o mamilo, produz efeitos para melhorar essa adaptação. “A saliva do bebê envia sinais ao corpo materno sobre suas necessidades específicas. Em casos de infecção, por exemplo, essa troca pode induzir a produção de mais anticorpos no leite”, complementa Maielly.
Mesmo após um ano, o leite mantém seu valor nutricional e imunológico. “Ele não vira ‘água’ depois de um ano, como muitos pensam. Continuará sendo fonte importante de energia, nutrientes e anticorpos, além de oferecer segurança e conforto emocional. Estudos mostram que a amamentação prolongada reduz o risco de alergias, melhora o desenvolvimento cognitivo e diminui a incidência de doenças crônicas na vida adulta”, reforça a imunologista.
Olhar de mãe
Embora conheça todos os benefícios da amamentação como médica, Maielly Pereira confessa que viver a experiência foi diferente. “Me surpreendeu a alegria de ver meu bebê mamando, desenvolvendo-se e ganhando peso. No começo foi sofrido, até ajustar a pega. Um momento marcante foi quando, ao chegar em casa da maternidade, fizemos contato pele a pele e ele mamou bem pela primeira vez. Nunca vou esquecer”, relembra a também mãe de José, de 1 ano.
Hoje, ela diz compreender que amamentar é algo muito além da biologia ou da Medicina. “Eu olhava para o meu bebê e pensava: ‘Tudo isso veio de mim’. Cada molécula de proteína e gordura, primeiro na gestação e depois na amamentação. Esses pedaços de mim estarão para sempre nele. Todo amor e dedicação estão registrados em cada célula ali”, observa a médica e mãe, que lança um recado para mulheres que também estejam vivendo o período. “Amamentar é resistir: à dor, ao cansaço, aos comentários desmotivadores e à falta de apoio. Mas não resistam sozinhas. Busquem ajuda de profissionais e de outras mães. Cada gota vale a pena”, finaliza.




























