Escritora Mary Del Priore reúne estudos sobre a juventude desde o período colonial

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Pesquisadores se debruçam sobre os múltiplos ângulos do tema ao longo da história nacional, expondo como juvenilidades socialmente desiguais são pensadas e vividas de modo distinto  

“O Brasil é um país de jovens?”, pergunta-se a historiadora Mary Del Priore. Segundo ela, era até pouco tempo atrás. Ao mesmo tempo em que o século XX lhes deu visibilidade, também produziu a impressão de que a juventude sempre existiu. E de que ela seria eterna. Mas não é: a juventude é uma idade social e historicamente determinada, condicionada por fatores evolutivos e condição social de cada jovem. Ela é também um dado biológico que transcende, vertical e horizontalmente, épocas e culturas. Como forma de se aprofundar sobre as multiplicidades da juventude, Del Priore organizou o volume História dos jovens no Brasil, que chega pela Editora Unesp, com 15 textos de renomados pesquisadores e pesquisadoras brasileiros.

“Atualmente, o lugar dos jovens em nossa sociedade e a representação que os adultos fazem deles nos permitem compreender nossa relação com a passagem do tempo e o ritmo das estações da vida. No entanto, durante séculos, a existência da juventude sequer era notada: escravizadas ou trabalhadoras prematuras, crianças pobres passavam diretamente da infância à vida adulta”, pontua Del Priore. “É certo que havia algumas cerimônias que marcavam os diferentes tempos na vida delas (como no caso do quicumbi, ritual de circuncisão de afro-brasileiros ou afro-mestiços, herdado de nações africanas), mas era corriqueira a integração precoce de crianças ao mundo do trabalho. Tempos depois, ao lermos os memorialistas dos anos 1920 e 1930, percebemos que a iniciação sexual se tornou o paradigma incontornável para marcar a entrada da criança na puberdade: rapazes deveriam se mostrar viris e fortes, e as jovens moças, estar prontas para se casarem. Esses exemplos demonstram que não falar da juventude não significa que não haja ritos de passagem.”

Os capítulos abordam as diferentes perspectivas da juventude brasileira: no Brasil colonial, império, escravagista, até a República, passando por temas como sexualidade, esporte, música, pretensões políticas e militares, rebeldia etc. “A partir da década de 1940, os jovens já gozavam de autonomia e viviam sociabilidades específicas dessa fase. Entre a elite, por exemplo, a palavra “adolescente”, existente desde o século XVI, passou a designar a juventude burguesa”, anota a organizadora. “Uma juventude que multiplicou as ofertas de uma cultura assentada sobre condições econômicas e expandiu o mercado a ela destinado: o dos festivais de música, o das telas e televisões, o das revistas, o do esporte, o da moda, o da droga, entre outras atividades.

Na base da pirâmide econômica, entretanto, outros jovens continuaram a lutar contra a desigualdade, o racismo, a precariedade de oportunidades, as dificuldades de acesso à educação. Sim, existem juventudes socialmente desiguais e, segundo a pertença social, elas são pensadas e vividas diferentemente. E tais diferenças são tratadas com excepcional cuidado por historiadoras e historiadores neste livro.”

Sobre a organizadora – Mary Del Priore é doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP). Lecionou História na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) dessa instituição e na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro. Publicou, pela Editora Unesp, Ao sul do corpo (2009), História do esporte no Brasil (2009), História do corpo no Brasil (2011), História dos homens no Brasil (2013), História dos crimes e da violência no Brasil (2017) e A história do Brasil nas duas guerras mundiais (2019). Em 1998, recebeu os prêmios Jabuti e Casa Grande & Senzala pelo livro História das mulheres no Brasil (Contexto, 1997).  

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