‘O Último Azul’: quando o futuro decide que você já passou da validade

Lançado em 2025, filme com Rodrigo Santoro já ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim e foi eleito como Melhor Filme Ibero-Americano no Festival de Guadalajara 

por Cristina G Souza

‘O Último Azul’ não fala sobre o futuro. Fala sobre um presente que decidiu que envelhecer é sair do enquadramento. No universo do longa, a perseguição à velhice é apresentada em forma de cuidado: a gestão do envelhecimento. O sistema não expulsa, não agride, não condena. Ele reorganiza. Reencaixa. Reduz o espaço social de quem já não acompanha o ritmo da máquina.

O escritor George Orwell entenderia isso sem precisar de legenda. Em ‘1984’, o poder não se sustenta apenas pela vigilância, mas pelo apagamento. O que não serve ao presente é eliminado da narrativa. O que carrega memória vira ameaça. O que lembra demais o passado precisa ser silenciado. ‘O Último Azul’ opera nessa mesma lógica. 

O envelhecimento aparece como falha de desempenho em um mundo obcecado por eficiência, previsibilidade e controle. Corpos envelhecem. Ritmos desaceleram. Questionamentos aumentam. Logo, precisam ser administrados. Marketing chama isso de segmentação. O filme chama de normalidade.

Ali, a marginalização etária não vem acompanhada de violência. Vem embalada em protocolos, relatórios, decisões técnicas. Tudo muito racional. Muito limpo. Muito orwelliano. O velho não é combatido, é tornado irrelevante. E aqui surge o paradoxo que o filme provoca: enquanto o sistema empurra os mais velhos para fora do centro da vida social, a economia faz exatamente o oposto.

Vivemos um país que envelhece rapidamente. E, querendo ou não, boa parte da engrenagem econômica gira graças ao dinheiro que vem justamente dessa faixa etária: aposentadorias, investimentos, consumo estável, patrimônio acumulado, apoio financeiro a famílias inteiras. Os mais velhos não são apenas cidadãos, são pilares silenciosos do fluxo econômico. E as empresas que enxergam o valor desse público sênior, têm um nicho fiel e lucrativo.

É aqui que Orwell encontra o capitalismo tardio: o sistema que vigia, controla e organiza também sabe extrair valor. O velho pode ser descartável simbolicamente, mas continua sendo útil financeiramente. Invisível na narrativa, essencial no caixa.

O problema é que dinheiro sem voz vira só recurso.

E, recurso, quando não convém mais, é substituído.

Há ainda um risco maior: os mais velhos carregam memória. E a memória é subversiva. Quem lembra compara. Quem compara questiona. Quem questiona ameaça qualquer sistema que se vende como único caminho possível. Por isso, envelhecer em ‘O Último Azul’ não é apenas um estágio da vida e sim um problema político.

A resistência, como em Orwell, não nasce do heroísmo épico, mas da recusa íntima. Do gesto pequeno de não aceitar o lugar designado. Porque quando o sistema decide quem importa, por quanto tempo importa e até quando pode existir em cena, continuar visível já é um ato de rebeldia.

‘O Último Azul’ fala de um futuro organizado e funcional. Mas deixa escapar uma pergunta incômoda: o que acontece quando uma sociedade depende economicamente de quem escolhe marginalizar simbolicamente? Orwell alertou que o poder começa quando alguém decide quem importa. 

O filme completa: e se consolida, quando decide quem envelhece fora do enquadramento. Se o futuro decide que alguém já passou da validade, ele está usando a mesma régua curta que o mercado usa para produtos descartáveis. Em um país que envelhece e depende cada vez mais do dinheiro dos mais velhos para manter sua economia girando, tratá-los como obsoletos não é apenas etarismo. É um erro estratégico. Porque todo sistema que descarta quem ainda sustenta seu funcionamento não está olhando para frente  — está apenas consumindo o próprio prazo de validade.

‘O último azul’ (Brasil, 2025)
Direção de Gabriel Mascaro

Cristina G Souza é especialista em Comunicação e Profissional de Marketing e-mail crisgahan@hotmail.com

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